quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Neblina

O galo cantava com toda a sua força fazendo ecoar o seu despertar por toda a aldeia. Contrariando toda a vontade do meu corpo, que se deliciava de preguiça, levantava-me respirando fundo e aceitando que seria mais um dia de lutar, vivendo os momentos difíceis que superam toda a alegria que o ser humano consegue num simples dia.
- António, vamos lá! Já são horas de sair da cama...
Não tomávamos o pequeno almoço, nunca tínhamos tempo ou mesmo o que comer. Ignorávamos a fome e saíamos de casa para trabalhar no campo e alimentar o gado. O silêncio ensurdecedor acompanhado pelo branco da neblina que envolvia o céu, os campos e nós os dois; refrescando o nosso rosto e acordando-nos para o início de um novo dia. Aqueles minutos de caminhada entre a porta da nossa casa e o campo, sempre sem dizermos uma palavra por causa da sonolência que ainda carregávamos; este momento era a aproximação que conseguia entre o Céu e a Terra, cheia de tranquilidade e aceitação.
- Tens a enxada?
- Tenho...
- Começa então por esse lado do campo que eu vou começar pela outra ponta. Mas a despachar porque temos muito que fazer hoje!
Falavas cheio de ódio e de rancor comigo, fazendo-me pensar que era culpada do teu trabalho e da tua tristeza, quando o único problema era simplesmente a vida. Mas tinhas que te libertar desse ódio e fazias através de mim, pelas palavras que me dizias e pela força que usavas em mim. Não aceitava aquilo porque sabia que não era certo mas aguentava porque não tinha força nem ódio suficiente para descarregar em ti.
Fui vivendo cada dia, aguentando cada nova dor que aparecia e cuidando das antigas dores; dores de corpo e de alma.
- Olá Alice! Olha, a minha mãe mandou entregar-te isto... é pouca coisa mas é o pouco que ela pode arranjar...
A Teresa sempre se lembrando de mim e dos meus filhos; sabendo da fome que passávamos, apesar do muito que trabalhávamos, mandava comida pela filha Ana que consolava o estômago dos meus filhos e saciava a minha consciência por saber que pelo menos eles comeriam uma boa refeição... mesmo eu passando fome. No entanto a Rosa e o Manuel não escapavam.... sempre que acabava a escola, o destino deles era o campo, junto de nós; não a brincar ou a estudar, mas a trabalhar com o sol infernal ou a incansável chuva. O quanto lamentava terem nascido naquela altura, naquela situação, naquele berço; lamentava tê-los trazido para este mundo, mas eles eram a desculpa para eu ter vivido... ou sobrevivido.

Maldito esqueleto que me sustenta hoje! Limitas-me em tudo o que queira fazer, apesar de nem eu mesma saber quero fazer hoje. Acabei sozinha, sem mesmo aceitar-me como companhia. Acabas-te por morrer antes de mim Antonio, e isso nunca te perdoarei! Merecia a paz primeiro que tu! Resisti mais que tu para a merecer. Deixaste-me com os nossos filhos... aqueles dois jovens que fizemos enfrentar a vida desde cedo sem mesmo lhes perguntarmos se queriam isso.
- Quem está ai?... Quem é?
- Sou eu mãe, a Rosa.
- Ah és tu.
- Sim, sou eu. Parece que não gostou que fosse eu. Tem agluma coisas contra mim, é? Se tiver pode dizer e esclarecemos já as coisas. É sempre a mesma merda!...
- Não, não tenho nada contra ti...
- E a casa ainda está assim desarrumada? E a roupa por apanhar e guardar? Que fez você toda a tarde? Eu tenho sempre que a aturar e manter! Você já está uma velha caduca, já não serve para nada, e eu que a aguente! E mesmo assim ainda deu os melhores terrenos de herança para o Manuel! Qual é a sua ideia?
- Mas...
- Está calada sua velha!
O Ser Vivo que viveu nove meses no meu ventre, aquele Ser Vivo pelo qual sofri para conseguir trazer ao mundo, aquele Ser Vivo que tanto fiz durante a minha vida para que pudessem saber o que é viver e sobreviver, e não apenas sobreviver como eu... Aquele Ser Vivo, que não é digno de ser chamado de "Ser Humano"... relembrou a dor do corpo que sentia quando o António me batia. Bateu, libertou também o ódio que tinha pela vida em mim, tal como o seu pai. E eu aceitei mais uma vez como tantas outras, mas sentindo ainda mais dor no corpo, pela fragilidade dos meus ossos, e uma dor ainda maior na alma. Novas dores que superam as antigas deixadas pelo pai... Mas aceito porque ainda não tenho ódio suficiente pela vida e nenhuma força no corpo e na alma, muito menos para lutar contra a minha própria filha...


Quero a paz da neblina...

Sem comentários: