segunda-feira, 6 de julho de 2009

Sentir

Divago pela casa descalça, sentindo o frio de cada passo que dou.
Adoro o inverno e tudo o que com ele vem: a chuva a bater nas janelas de toda a casa, querendo invadir o meu espaço; a trovoada que quebra o silêncio da noite; o frio que invade todo o meu copo, fazendo-me tremer e sentir que estou viva.
Pego numa das melhores garrafas de vinho tinto da garrafeira de pedra que está na cozinha, coberta por uma fina camada de pó, denunciando o seu tempo de repouso. Abro-a e procuro um copo que combine com a garrafa, que seja leve e agradável no seu manuseamento, permitindo sentir cada movimento do vinho vertido.
Movo-me com toda a rapidez, em curtos e silenciosos passos... confortavelmente invado o sofá da sala, iluminada pelo fogo que acendera há pouco tempo, envolvida pelo delicioso som do Jazz. Encho o copo e bebo os primeiros goles. Sinto o calor do fogo e do vinho a envolver-me, a acolher-me, a abraçar-me. Reparo em tudo o que me envolve, tudo aquilo que já conhecia por ter sido eu a escolher... o fogo faz tudo parecer ainda mais belo; tantas sombras, tanto brilhos... Adoro aquele momento. Tudo é perfeito. Fixo-me no brilho do piano preto que durante tantos anos desejei ter, e perco-me nos meus pensamentos...
Chegas tu tarde do trabalho, falando sozinho, murmurando o quão cansado estavas das várias horas perdidas a lutar por algo que nem tu acreditavas. Rapidamente quebras toda aquela calma que me consumia. Apenas olhas para mim e sorris. Sorris de inveja daquele momento que eu estava a viver e que também querias.
- Espera por mim...vou só tomar um banho!
Entrei outra vez para aquele mundo, de onde me retiraste durante uns minutos, esperando por ti, mas já esquecendo que virias... Volto a encher o meu copo e a saborear aquele incrível vinho, agradecendo aquela magnífica música que se misturava com os sons da trovoada e, aquele ambiente que era como uma dádiva para todos os meus sentidos.
Sinto o teu cheiro a aproximar-se de mim, juntamente com o frio do inverno que ainda carregas de lá de fora.
- Posso roubar um pouco do vinho do teu copo?
- Sim.
Dás um pequeno gole, degustando e avaliando-o... aprovas e dás mais outro gole.
Pousas o copo e, de forma cavalheiresca, convidas-me para seguirmos o som da música e da trovoada, acompanhados pelo calor do fogo e dos nossos corpos. Tocas suavemente com as tuas mãos ao longo dos meus braços até envolveres com os teus braços o meu corpo, num meigo e deleitoso abraço. Sinto-te, ouço-te e cheiro-te... sentes o que eu sinto com o teu toque e eu sei o que sentes com o meu. Aquele beijo no rosto no momento certo, no sítio certo... Mais do que desejo do corpo, é desejo da alma! Calmamente beijas-me e eu beijo-te... Calmamente e embalados pelos sons e pelo calor. Recostas-me ao piano, fazendo-me sentir o frio que o envolver, e começamos a satisfazer todo aquele desejo que temos sempre um pelo outro e que despertamos com aquele momento. Calmamente sentimo-nos e amamo-nos, não vivendo aquele momento como se fosse o último mas como único!...

A música acaba e apenas fica o som da trovoada e do estalar do fogo. Pouso o meu copo e choro... Choro como uma criança a quem lhe foi roubado o doce... Choro porque vivo imaginando como gostava que fosse; choro porque não tenho um momento destes contigo; choro porque simplesmente não te tenho.